Medicamentos naturais em oncologia. Vale a pena usar?

A internet é rica em artigos e informações sobre medicamentos naturais em oncologia. Esses tratamentos têm em comum serem derivados de plantas, animais ou fungos – e são apresentados nas mais variadas formas, como chás, folhas, sementes, entre outros. Provavelmente você já deve ter ouvido falar de babosa, graviola, boldo, cartilagem de tubarão, cogumelo do sol e muitos outros. Muitas deles são anunciadas como medicamentos para câncer porque foi “comprovado” que matam células cancerosas.

Mas matar uma célula cancerosa significa que este é um medicamento contra o câncer? Não necessariamente, entenda por quê.

Para uma substância qualquer se tornar um medicamento é necessário que se façam testes em laboratório avaliando qual o seu potencial como medicamento. Quanto maior a concentração da substância e mais tempo as células fiquem expostas, mais elas morrerão, isto pode ser provocado por diversas substâncias. Por exemplo, se nós expusermos células de câncer a altas concentrações de oxigênio, muitas células morrerão pela geração de radicais livres de oxigênio, e nós sabemos que respirar mais rápido não melhora o câncer. Da mesma forma, água sanitária é capaz de matar todas as células de câncer rapidamente, mas se injetada na veia de uma pessoa causaria sua morte.

Por outro lado, quando uma substância é capaz de matar apenas a célula do câncer sem agredir demais as outras células normais do corpo, ela tem um alto potencial de se tornar um remédio eficaz.

Muitos dos medicamentos que temos hoje são derivados de plantas e animais, como, por exemplo, os Taxanes (usados para câncer de mama, pulmão, ovário e outros), derivados da árvore Taxus, ou a Eribulina (usada em câncer de mama), substância semelhante à produzida pelas esponjas marinhas (Veja outros exemplos nas imagens abaixo). O trabalho da ciência é identificar exatamente qual a substância presente nessas plantas ou animais capaz de matar as células cancerosas. Em seguida, essa substância é isolada e purificada, dessa maneira é possível controlar a dose e minimizar a administração de outras substâncias presentes nesses vegetais ou animais que não tenham nenhum efeito.

Taxus brevifolia, planta onde foram identificados os medicamentos da classe dos Taxanes, eficazes em diversos tipos de câncer.
Taxus brevifolia, planta onde foram identificados os medicamentos da classe dos Taxanes, eficazes em diversos tipos de câncer.

O processo de identificação de uma substância até que ela se torne um medicamento é longo e caro. Dura em torno de 12 anos e os gastos ficam entre 500 milhões a um bilhão de dólares por novo medicamento. Há uma estimativa que apenas uma substância entre 25 que são identificadas em laboratório se torne um medicamento eficaz no tratamento diário de pacientes com câncer. Hoje há milhares, talvez milhões, de pessoas empenhadas no desenvolvimento de novos medicamentos; médicos, cientistas, pacientes, agências reguladoras de saúde e muitos outros.

Podophyllum hexandrum, planta de onde se extrai o etoposide, eficaz no tratamento do câncer de pulmão, testiculo dentre outros.
Podophyllum hexandrum, planta de onde se extrai o etoposide, eficaz no tratamento do câncer de pulmão, testiculo dentre outros.
Catharanthus roseus, planta de onde se extraem alcalóides da vinca, muito utilizados no tratamento de neoplasias hematológicas.
Catharanthus roseus, planta de onde se extraem alcalóides da vinca, muito utilizados no tratamento de neoplasias hematológicas.

Mas se o medicamento é natural ele não faz mal, certo? Talvez faça, temos que tomar cuidado. Lembro-me de um professor antigo da faculdade que falava que “veneno de cobra é natural, você quer tomar?”.

O fato de não haver estudos com medicamentos naturais não nos permite dizer se são seguros ou não, em particular quando são tomados com outros remédios, como a quimioterapia tradicional. Nós também não podemos garantir a dose, será que dois cogumelos de tamanho diferentes têm a mesma quantidade de substâncias? Pode haver contaminantes nesses medicamentos naturais como fungos ou bactérias tóxicas, que podem aumentar o risco de infecções em pessoas que fazem quimioterapia. Medicamentos naturais podem interferir e até anular os efeitos da quimioterapia, chá verde, por exemplo, diminui em muito o efeito do medicamento bortezomib.

A minha recomendação para pessoas que estão inclinadas a tomar medicamentos naturais é que conversem com seu médico. Que avaliem com ele os riscos e os benefícios de cada tratamento e decidam, em conjunto, se um medicamento natural é recomendado, compatível e seguro para o seu caso.

Camptotheca acuminata, de onde se extrai o irinotecan, medicamento usado no tratamento do câncer de cólon, do sistema nervoso central dentre outros.
Camptotheca acuminata, de onde se extrai o irinotecan, medicamento usado no tratamento do câncer de cólon, do sistema nervoso central dentre outros.
Halichondria okadai, esponja do mar onde foi identificado o medicamento eribulina, usado no tratamento do câncer de mama.
Halichondria okadai, esponja do mar onde foi identificado o medicamento eribulina, usado no tratamento do câncer de mama.

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5 comentários em “Medicamentos naturais em oncologia. Vale a pena usar?”

  1. Tive câncer de mama (ainda estou em tratamento com herceptin) e poderia fazer extensa lista de remédios naturais que já me foram “receitados”! No começo até questionava meu médico, depois acho que ele perdeu a paciência e me indicou este site: http://www.mskcc.org/cancer-care/integrative-medicine/about-herbs-botanicals-other-products
    Os teus artigos são bem claros e informativos. Gostaria de ler mais sobre atividade física e suplementação durante o tratamento.
    Obrigada,

    Ana

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    1. Oi Ana, que bom que você gostou do site. Este link que você mandou é bastante confiável, um dos maiores centros de oncologia. Tive a oportunidade de visitar quando estive em Nova Iorque e gostei muito.

      Está anotada a sugestão de atividade física e suplementação durante a quimioterapia.

      Um abraço!

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  2. Dr Felipe, em sua ultima pagina vc diz que nao ha estudos com medicamentos extraídos de plantas. Acho que vc deve ter se enganado pois muitos estudos tem sido desenvolvidos em nossas universidades (é este o meu universo) brasileiras que mostram que mtas de nossas plantas tem efeito anti-cancerigeno. Não apenas na USP e UFRJ (instituiçoes onde conheço pessoas que trabalham na area) como na Fiocruz (RJ) mtos trabalhos na area de fitoquimicos anticancerigenos tem sido desenvolvidos na area quimica e farmacologica. Vale a pena dar uma olhada na bibliografia a respeito. De qq forma, valeu a abordagem na area. Bjs da fã numero um.

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    1. Oi Lozinha, concordo com você que há pessoas sérias e comprometidas com o desenvolvimento de terapias herbais no Brasil. Acho esse um campo importante a ser explorado. A questão da utilização destes medicamentos em oncologia é que não há estudos que avaliem a eficácia (estudos de fase3) destes medicamentos em oncologia em comparação com os tratamentos estabelecidos. Outro problema é a interação farmacocinética e farmacodinâmica, dados que não possuímos para a maioria dos medicamentos naturais. Logo, não quer dizer que estes medicamentos não funcionem, no entanto não temos dados suficientes para suprimir os tratamentos convencionais e dados de segurança para recomendar o uso concomitante para a maioria das medicações naturais. Bj!

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